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A Intervenção Humana no Meio Ambiente

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Olá, caro leitor, alguma vez você já parou para refletir sobre a importância do meio ambiente na sua vida? Sei que esse tema já foi muito discutido e que você deve ter ouvido falar muitas coisas sobre a importância dessa preservação - talvez já nem agüente mais ouvir falar sobre o tema. Mesmo assim, insisto em abordá-lo novamente, só que por uma ótica diferente: não falarei da preservação diretamente, mas procurarei estabelecer uma relação entre o ser humano e o meio onde este vive, um meio onde a preservação é só uma conseqüência de como se estabelece essa relação.
Vamos tomar como exemplo os mananciais. Desse modo, eu lhe pergunto: qual sua relação com os rios?
Dependendo de sua resposta, você saberá qual a importância da existência ou não desses cursos d'água. Vivemos em cidades, e vale a pena lembrar que praticamente todas elas se desenvolveram a partir dos cursos dos rios, não só como forma de garantir a proximidade com um dos elementos básicos de sobrevivência, mas também porque este foi o principal meio de locomoção e orientação nas explorações das terras desconhecidas no passado.
Mas e agora, qual é o papel dos rios nas grandes cidades?
Na realidade, não temos praticamente contato algum com o meio natural e, quando sentimos sua falta, nós o buscamos fora dos limites das cidades: vamos ao campo. Para não perdermos o pouco que ainda resta, criamos as áreas de preservação, que tornamos intocáveis por não sabermos lidar com elas. E nas cidades, como sempre, vale tudo.
 fotografias: Eduardo Ferroni
Sempre há algo entre o homem e os rios nas cidades: ou são as construções ou são as avenidas e grandes marginais. Fica mesmo difícil estabelecer um contato direto com os recursos naturais diante de tantos obstáculos. Conseqüentemente, não há relação. Mas não é só isso! A postura com a qual o homem vem tratando o meio onde vive aumenta ainda mais essa dificuldade, pois é mais simples e cômodo ignorar regras e praticar atitudes que prejudicam o meio ambiente do que trabalhar a seu favor. Aparentemente, fazer o "certo" dá mais trabalho, não é mesmo?
O tema "enchentes" tem sido muito discutido ultimamente. Os maiores culpados dos quais tenho ouvido falar são os rios e os governantes. A solução mais freqüente requerida pela população tem sido a canalização, ou seja, transformar o rio em um cano, livrando-se de um problema sem medir as conseqüências dessa intervenção. Afinal, "é só água". 
Mas por que será que isso acontece?
Podemos comparar a estrutura de repercussão das ações em uma cidade a uma gota que cai em um copo com água. Ao tocar a superfície, a gota emite ondas circulares em todas as direções e que tocarão as bordas do copo, gerando um contrafluxo que repercutirá em toda sua extensão. Ou seja, qualquer ação, por menor que possa parecer, espalha-se até os limites urbanos, repercutindo em todo seu percurso. E, com toda certeza, haverá o refluxo dessa ação.

fragmento de fotografia: Eduardo Ferroni
Não existe ação isolada, sem repercussão. Tudo o que fazemos interfere no meio onde vivemos.
Um bom exemplo disso é a crescente impermeabilização do solo nos lotes e nos espaços públicos que, juntamente com a pavimentação inadequada das ruas, vem reduzindo em demasia a penetrabilidade da água no solo, restando apenas o caminho das galerias de águas pluviais para o escoamento das chuvas, que, por sua vez, deságua nos rios.
Porém, os rios existiam antes mesmo de morarmos junto a eles. Sua capacidade de vazão era perfeita para a necessidade de escoamento com o meio natural intacto. Contudo, o homem foi alimentando os rios além de sua capacidade, como se estivesse forçando alguém a beber 5 litros de água de uma só vez. Pois é, ninguém agüenta! Os rios também não!
Então, nós culpamos os rios, as chuvas, o verão, os governantes e todo mundo que passar pelo nosso pensamento, pelo fato de os rios haverem transbordado, ou melhor, "haverem sido transbordados". Em busca de uma solução, nós os interrompemos, canalizamos, alargamos, alteramos seus cursos e até conseguimos inverter seus fluxos. Mas por que nada disso funciona?
Os rios e as chuvas são naturais, existiam antes mesmo da existência do homem. O ambiente a nossa volta não foi se modificando, nós é que o transformamos naquilo que conhecemos hoje. Portanto, todos temos nossa cota de responsabilidade pelo mundo que conhecemos e do qual participamos, ainda que passivamente.
Já posso até ouvir muitas pessoas dizendo que nada têm a ver com isso, e pelas mais variadas justificativas - temos muita criatividade e habilidade em fazê-lo. Essa auto-indulgência envolve a necessidade do homem de se eximir das responsabilidades, das causas de seus desconfortos. A culpa sempre tem que ser de alguém. No caso das manifestações naturais, porém, quando não temos parâmetro para culpar pessoas, culpamos as próprias manifestações.
É só ligar a televisão, ler uma revista ou abrir um jornal para verificar um monte dessas manifestações: chuva mata tantos, fúria do furacão devasta, vulcão derrama suas cinzas sobre a cidade, calor castiga, frio, terremoto, camada de ozônio, nevasca. Puxa! São tantas! O exemplo mais atual é o "El Niño". Demos até um nome para esse evento! Mas o que é o El Niño?
Simploriamente poderia-se dizer que é uma conformação peculiar de correntes de ar. Simples, não? Nem tanto, pois isso é o reflexo das atitudes de todos os habitantes do planeta, ou seja, o reflexo do que todos nós fizemos. É o contrafluxo do exemplo do copo: o El Niño é uma criação do homem e não do planeta.
A maneira como estamos tratando os problemas que enfrentamos com este contrafluxo nas cidades não poderia estar mais equivocada. Assorear rios não os fará parar de transbordar; alargar vias não fará o trânsito fluir; aumentar a linha do metrô não fará o transporte melhorar. Nada disso adiantará por muito tempo, afinal, a cidade continuará crescendo, exigindo mudanças estruturais. A solução não é parar de construir, mas construir e transformar o meio de maneira inteligente e crescer adequadamente. Para tal façanha, não é necessário fazer nada espetacular e mirabolante. É necessário apenas usar aquela que talvez seja a mais difícil faculdade a ser utilizada pelo ser humano: o discernimento. 

fragmento de fotografia: Nelson Kon
Sabendo disso, por que não encaramos a questão com seriedade? Porque é trabalhoso demais e exige muito esforço? Ou será porque morreremos daqui a alguns anos, não estaremos mais aqui e, portanto, isso não será mais da nossa conta? Quantas e quantas vezes ouvimos essa frase diante das mais diversas questões? Muitas, não? Mas se todos pensassem assim já teríamos entrado em colapso há muito tempo. Que sorte a nossa, então, em haver gente que pensa diferente! Pois é, agora que nós somos a "bola da vez", podemos tentar pelo menos adiar esse colapso para dar tempo aos outros que virão a nossa frente, para que eles tentem, por sua vez, ajustar as coisas, ou ao menos adiar esse possível colapso mais um pouco para que outros tentem evitá-lo ainda mais à frente.
Por enquanto, todos podemos adotar alguma posição. Mas não é necessário sair às ruas e fazer protestos, é a atitude e a postura mental diante do que nos cerca que serve como um primeiro passo. É essa mesma relação com o nosso entorno imediato que atua além do nosso alcance de percepção. Analisar nosso próprio comportamento não é algo fácil. Podemos descobrir que fazemos muitas coisas com as quais não concordamos, e que muitas vezes prejudicamos o ambiente sem perceber, não raro por negligência e comodismo.
O processo de mudança pode não ser fácil para a maioria de nós, mas o resultado é sempre um ser humano mais consciente.
Alguém consciente de sua existência como ser vivo, que tem necessidades ligadas a toda uma sociedade, ao meio onde vive e ao Planeta, inevitavelmente passará a respeitar o meio ambiente e tudo que o envolve, sabendo que seu ato influencia principalmente ele mesmo. Afinal, não conheço ninguém que deseje beber 5 litros de água de uma só vez.
Omar Dalank
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Omar Dalank é Arquiteto Urbanista e professor do ensino superior em São Paulo.