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Atalhos - Cefle

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Planeta em Evolução - 15/08/2002
Uma Raça Poluidora?

Somos uma espécie poluidora? Por incrível que pareça, o fato de sermos criativos, inteligentes e racionais, fato este que nos atribui a capacidade de modificar o meio-ambiente para adequá-lo a nossos gostos e necessidades, é também o responsável por sermos uma espécie capaz de causar influências no meio em que vivemos, influências estas que a Natureza não é capaz de absorver nem de se adaptar. O mesmo fator de genialidade que nos possibilita sermos quem somos, que nos dá o poder de criar e modificar, torna-nos também os algozes poluidores de nossa própria Casa, essa imensa e bela nave azul que chamamos de planeta Terra.

Ao fazer a afirmação acima, sei que o leitor pode achar que estou redundando em um tema já bastante explorado por muitas pessoas, instituições e publicações, mas seria bom atentar para uma grande diferença: não falarei a respeito das grandes mudanças que deveriam acontecer na sociedade como um todo, mas apenas dos pequenos atos cotidianos que nos cabem, sobre os quais temos plena influência e poder de ação.

Comecemos por considerar que poluição não é apenas a fumaça no ar nem o lixo e os produtos químicos nos rios e no solo, mas também o ruído que fazemos o tempo todo pelo mundo, gritando, assobiando para "todo mundo" em vez de apenas para nós mesmos, buzinando em situações em que isso não seria necessário, cantando ou ouvindo música em um nível de volume tão alto que pessoas que não compartilham de nossos gostos musicais acabam por serem obrigadas a se submeterem a eles. Por acaso, caro leitor, você já havia considerado a si mesmo como uma fonte de poluição sonora?

Esse tipo de poluição surge de maneira mais clara que os outros tipos. Para começar, a poluição sonora se caracteriza por ser gerada, geralmente, sem nenhuma má intenção. Surge de uma aparente necessidade, de um prazer, de um gosto, de uma opção inocente e até, muitas vezes, de boas intenções. Cabe aqui lembrar que a fumaça da indústria está lá porque nós queremos ter produtos industrializados e porque precisamos dos empregos dessa mesma indústria. Isso também pode envolver necessidade, prazer, gosto, opções e boas intenções, não é? Parece que sim.

Contudo, quando alguém nos incomoda com sua poluição sonora, em vez de culparmos as autoridades ou qualquer outro representante de um aspecto de poder, costumamos reclamar que somos vítimas de "falta de respeito" ou de "falta de consideração". Isso é bem acertado e retrata uma triste verdade: somos poluidores por sermos, de certo modo, egoístas. Quando nós mesmos estamos poluindo, raramente percebemos! Isso acontece porque sempre nos colocamos no grupo das exceções, como se fôssemos casos diferenciados dos demais, que são os "outros". Pior ainda, achamos que temos o direito de cometer atos "poluentes" simplesmente porque os outros o fizeram, pois se deixássemos de fazê-lo, sairíamos "perdendo". Para completar, podemos estender essa poluição para além do âmbito sonoro, incluindo desde o papel de bala que se joga na rua e do carro mal-regulado que solta fumaça, até as conseqüências das decisões que tomamos quando conseguimos uma posição de poder e influência, quer seja em um clube, em uma agremiação de bairro, em uma empresa, na política etc.

Tomemos consciência da presença dos outros ao nosso redor. Preocupemo-nos com nossa vizinhança. Lembremo-nos de que nossos gostos podem divergir dos gostos dos outros. Não retribuamos o egoísmo alheio com o nosso próprio, mas sim com atitudes sadias e instrutivas. Se começarmos pelo universo da despoluição pessoal, talvez as gerações que venham depois de nós aprendam algo de bom e despoluam o planeta.

Alberto Cabral

Atalhos - Cefle

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