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Atalhos - Cefle

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Um koan sonoro

Falando em pensar, aqui vai uma pergunta que mais parece aqueles koans da filosofia zen - aquelas perguntas sem sentido lógico que servem para "quebrar o intelecto" da pessoa e abrir, assim, caminho para a intuição:

Imagine uma sala onde não há ninguém, nem mesmo perto do ambiente. Imagine agora, por exemplo, que o vento faz derrubar um copo no chão e este se quebra em vários pedaços. O que pergunto é: se não havia ninguém na sala para ouvir o som do copo quebrando, podemos afirmar que ele realmente fez um som ao cair no chão e quebrar?

Acredito que a maioria irá responder sim, é claro que fez um som, porque se imaginou vendo o copo cair e imaginou o som do copo em sua mente. Mas lembre-se, você não estava lá. Ninguém estava perto o suficiente para ouvir o copo quebrar.

Ok, vou repetir agora a pergunta, só que analizando o contexto sob nossa nova visão do som: se não havia ninguém na sala para sentir a perturbação no ar que o choque do copo contra o chão provocou, e transformar em seu cérebro esses movimentos do ar em som, podemos dizer que houve som? Se não havia ninguém para "ouvir" o som do copo quebrando, não ocorreu então apenas ar se movendo na sala? Se, como vimos, o que chamamos de som só ocorre dentro de nossa cabeça, como podemos afirmar que houve som na sala? Não houve apenas ar se deslocando?

Calma, não precisa responder. É só para pensar.

Vamos agora tentar ir mais fundo nessa reflexão.

Ouvir é, então, a capacidade de sentir movimentos do ar à nossa volta. Simples assim. Nós somos capazes de, através de um aparelho apropriado (o aparelho auditivo), sentir as vibrações do ar, desde que estas ocorram dentro dos limites desse aparelho (dentro de uma faixa de velocidade de vibração do ar e com uma perturbação mínima - vide nossa primeira coluna).

E daí? Daí que isso confere à audição uma característica que a faz lembrar muito nossas capacidades paranormais - a chamada "sensibilidade espiritual" que tanto estudamos. Por exemplo:

Imagine que exista uma cidade onde todos são surdos de nascença. Ninguém nessa cidade nunca ouviu um som. Então eles não tem nem a referência do que possa ser ouvir, e por isso também não sentem falta de nada. Sua linguagem se desenvolveu por gestos e pela forma escrita desses gestos e eles vivem muito bem, obrigado.

Agora imagine que chega nessa cidade uma pessoa como nós, que ouve. Imagine que você chega nessa cidade. Você é recebido e fica hospedado na casa de uma família.

Mais cedo ou mais tarde, eles começarão a perceber que você tem reações a estímulos que eles não percebem, por exemplo, quando você ouve um som. Passarão a achar você um tanto esquisito, talvez "meio louco".

Você está lá, "conversando" com as pessoas, e alguém vem se aproximando por trás de você. Eles o vêem, mas você não, e então você ouve os passos dessa pessoa e instintivamente se vira para ela. Como você acha que reagiriam seus amigos ao te verem "adivinhar" que o outro estava chegando? Com um tremendo espanto, é claro! "Como pode essa pessoa sentir a outra chegando, sem vê-la?" - perguntam-se seus anfitriões.

Num outro momento, estão todos dentro de casa e você está ouvindo alguém cortando lenha do lado de fora. Então você ouve um trovão e "diz", via gestos, que é melhor chamar aquela pessoa que está lá fora para dentro, pois vai chover. Pronto, agora você definitivamente deixou seus amigos assustados. Como pode você saber que tinha alguém lá fora cortando lenha? E pior ainda, como sabe que vai chover?

Para resumir, você iria ser taxado de louco, ou mestre, ou mágico, um semideus talvez, ou mesmo o diabo em pessoa. Não importa, eles não iriam compreender essa sua "fantástica" capacidade, e você teria que deixar a cidade às pressas, antes que começassem a beijar seus pés ou tentassem te matar.

Como vimos, falar sobre som dá muito o que pensar. Na medida em que essa reflexão abre espaço para que possamos perceber o mundo de uma maneira diferente, estamos então caminhando para uma relação mais harmoniosa e equilibrada com este mesmo mundo e conseqüentemente, com nós mesmos.

Um grande abraço a todos.
Paz e Luz.

Renato S. Stella

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Renato Soares Stella é Músico Profissional (Guitarrista e Professor). Estuda Música desde os 12 anos e Espiritualidade em geral há 9 anos.


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