- Filosofia - 18/12/2003
- Casando igualdade
com desigualdade
Qual a relação entre a divisão da riqueza e a
divisão do poder num Estado? Há tempos que as esferas econômica
e política se confundem. Nada mais óbvio que a conclusão: riqueza
leva ao poder e vice-versa. Insiste-se, porém, em separar esses
domínios. Talvez para mostrá-los em relações mais convenientes.
Hoje parece impossível apartar, de um lado, SOCIALISMO e TIRANIA
e, de outro, CAPITALISMO e DEMOCRACIA. Um conceito leva automaticamente
ao outro, como se fossem os dois lados duma mesma moeda. Pergunta-se,
portanto, acerca da legitimidade dessas associações.
Parece certo que ambas as matérias tratam de
garantir a justiça em determinados tipos de partilha: de riqueza,
no caso da economia, e de poder, no caso da política. Tão difícil
quanto comum, o conceito JUSTIÇA recebeu a seguinte definição
na voz de Aristóteles: "dar a cada um a parte que lhe cabe".
O problema passa a ser, então, definir a parte que cabe a cada
um. Nesse caso, tais porções devem ser iguais ou diferentes? A
resposta parece simples: os quinhões devem ser iguais quando o
mérito das partes envolvidas for semelhante e diferentes quando
o mérito for distinto. Entende-se por MÉRITO, a capacidade de
produzir bens, no que diz respeito à economia, e o potencial de
tomar decisões corretas nas questões do Estado, quando se fala
de política.
De acordo com a doutrina aristotélica, a MONARQUIA
é a melhor opção para a sociedade em que uma única pessoa se destaca
pelo mérito político, pois todo o poder deveria ficar nas mãos
dessa pessoa. Caso esse mérito compreenda um grupo seleto de indivíduos,
divide-se o poder entre eles, adotando-se a ARISTOCRACIA. Por
fim, caso a maioria dos cidadãos apresente capacidade política,
a escolha é pela politéia e o poder é distribuído igualmente por
todos. Todavia, na concepção de Aristóteles a política deve visar
o bem comum e qualquer desvio desse fim gera constituições deformadas.
É o caso da tirania, quando o detentor do poder governa somente
para o bem próprio; da oligarquia, quando o poder atende unicamente
causas particulares; e da democracia, quando a maioria ignora
as minorias. Com o passar do tempo, o termo democraria perdeu
o seu caráter negativo original e foi tomado em lugar de politéia.
DEMOCRACIA é hoje entendida de forma positiva, como o poder político
igualmente repartido entre os cidadãos e exercido para o bem comum.
No caso da economia, essa divisão parece ainda
mais simples, uma vez que se descarta a hipótese do mérito econômico
ser exclusividade dum único sujeito. Assim, restam as duas vias
conhecidas: o SOCIALISMO, em que se considera que o mérito econômico
está espalhado nos cidadãos, logo a riqueza é igualmente dividida
entre eles; e o CAPITALISMO, que pressupõe o mérito distinto entre
as partes, donde a riqueza é repartida proporcionalmente ao mérito
de cada um.
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