- Filosofia - 01/06/2003
- Quem nasceu primeiro?
O resultado da união de uma laranja e
outra é um par. Quem negaria? Coincidência ou não,
a aritmética afirma algo similar: 1+1=2. Racionalistas
associariam a prática à teoria, dizendo que aquela
conclusão surge dessa relação. Porém,
tal genealogia pode ser menos manifesta do que a intuição
aceitaria.
A identidade do objeto da experiência
é garantida pela singularidade do conjunto dos seus atributos.
Noutras palavras: é impossível encontrar duas laranjas
absolutamente idênticas! Considerá-las separadamente
é perceber ao menos uma de suas propriedades que seja distinta;
por exemplo, sua posição no espaço. Gêmeas
em tudo, inclusive nas coordenadas espaciais, não seriam
um par, mas uma única e mesma fruta. Sabe-se que o mundo
compreende objetos quase indistintos entre si. A identificação
de um entre vários átomos de hidrogênio seria
certamente uma tarefa inglória. Entretanto, não
se pode relacioná-los com uma igualdade absoluta. Seja
pela posição do elétron na órbita,
seu conjunto de atributos é singular.
Na aritmética, a partícula elementar
parece prescindir dessa exclusividade de caracteres. É
o caso do paralelismo da unidade. O comportamento de um 1 em uma
adição é o mesmo de outro 1 usado em uma
subtração, isto é, trocassem de lugar, o
efeito seria absolutamente nenhum. Como se, a esse sujeito matemático,
fosse permitido estar em dois lugares ao mesmo tempo. No entanto,
caso todos os signos de unidade se referissem ao mesmo objeto,
o 1+1 jamais seria igual a 2, uma vez que o universo aritmético
se resumiria a um solitário 1. Em termos de experiência
sensível, seria o mesmo que dizer: "da soma dessa
laranja que está na minha mão, com essa mesma laranja
que está na minha mão, resultam duas laranjas".
Com efeito, deveriam existir unidades particulares correspondentes
a cada número 1 anunciado nos fundamentos da disciplina.
O certo seria dizer: "Laranja#1 + Laranja#2 = duas laranjas"
ou, para deixar os matemáticos furiosos, "1'+1''=2".
Não obstante, para o matemático
basta dizer que existem números. Quantas vezes desenhar
o número 1 no papel, tantas unidades gerará, porque
o sujeito matemático estará ali, impresso na tinta
sobre a celulose. Essa coincidência entre signo e significado
possibilita a distinção de elementos cujas propriedades
são absolutamente idênticas. Permite que 1+1 seja
igual a 2 (que o primeiro 1 seja o 1' e o segundo, 1''). Logo,
apesar da rigorosa igualdade entre o primeiro e o segundo números
da operação, não seriam um e o mesmo. Daí
é possível deduzir pares, trios, quadras e quantos
outros agrupamentos se possa imaginar.
A matemática opera com indivíduos
absolutamente idênticos. Paradigma da identidade, o 1 repete
sem cessar o mesmo conjunto de propriedades. Escrito com fina
caligrafia no papel ou cogitado de forma corriqueira no entendimento,
um número jamais se altera. Como se os signos apontassem
todos para um único objeto. Por outro lado, é improvável
encontrar dois átomos cujos núcleos possuam o mesmo
diâmetro. Sempre surgirá um infinitesimal de incongruência
jogando por terra o ideal da perfeita igualdade. São arredondamentos
e concessões que garantem o dito de ambos: "têm
o mesmo peso atômico." Na matemática existe
unidade no objeto. Nas outras ciências ela parece nascer
no sujeito, na forma de uma certa "vista grossa".
Essa unidade é a própria condição
de possibilidade de qualquer ciência. Sem singularidade
nos conjuntos de atributos dos objetos de uma disciplina, não
há como ordená-los sob lei alguma.
A ciência trata indivíduos distintos
como iguais, concessão desnecessária na matemática
- disciplina tida como modelo e ponto de partida de todas
as outras ciências. Contudo, a matemática trata iguais
como distintos, o que só se manifesta verdadeiramente quando
passa do espírito à matéria. Nesse caso,
quem nasceu primeiro: a ciência ou a matemática?
Orlando Bissacot Neto
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| Orlando
Bissacot Neto é Analista de Suporte, Bacharel em
Filosofia e atualmente inicia um curso de Mestrado em Teoria
Literária na Universidade de São Paulo.
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