- Ciência - 11/11/2001
- Inteligência
Artificial: em Busca de uma Definição
O
presente texto foi apresentado como um Paper para o módulo de
informática do Regime de Iniciação Científica da Universidade
São Judas Tadeu.
por Alberto Cabral Fusaro
Introdução
Quem não é especialista na área
de informática, ao ouvir falar em Inteligência Artificial, ou
IA, tende a pensar em algo futurístico, digno dos melhores clássicos
de ficção científica, imaginando máquinas sencientes e autoconscientes,
supostamente capazes de superar em praticamente tudo o ser humano.
Mas a realidade da IA não é apenas esse pináculo tecnológico sonhado
tanto por escritores quanto por pesquisadores.
Nesse começo de século XXI, a IA
é algo muito mais comum e corriqueiro do que pode parecer ao leigo
incauto e desavisado.
O objetivo do presente trabalho
é oferecer uma apresentação da IA para leigos em informática,
traçando um pequeno circuito técnico-histórico na tentativa de
alcançar uma definição aceitável (mesmo que insuficiente) e uma
delimitação da abrangência dessa expressão.
Cabe ainda adiantar aqui uma distinção:
quando se fala de IA, pode-se estar referindo à dita IA "pura",
que seria a capacidade de processar conhecimentos e chegar a conclusões,
ou aos "indícios" de IA, em que sistemas automáticos
são capazes de tomar certas decisões pré-programadas. Ambos os
casos serão brevemente abordados no discorrer do trabalho.
Um Pouco de História da Computação
Segundo as definições de grandes autores de manuais
de Informática, a IA "pura" seria classicamente um atributo
dos computadores de quinta geração. Para compreendermos o que
isso significa, é interessante termos uma branda noção de quais
foram as gerações anteriores:
·
Primeira Geração: computadores construídos com válvulas a vácuo, como
o ENIAC, o EDVAC etc. Não possuíam sistema operacional. Faziam
tarefas específicas, determinadas por meio de um sistema de programação
mecânica manual antes de cada operação.
·
Segunda Geração: computadores construídos com transistores, em geral
de germânio (não-sólido), permitindo grande miniaturização. Nesses
modelos surgiram os primeiros rudimentos de sistema operacional.
·
Terceira Geração: computadores construídos com a utilização da tecnologia
de circuitos integrados (combinação de transistores e diodos em
uma única pastilha de silício) e circuitos híbridos (combinação
de capacitores, indutores, resistores e semicondutores sólidos
em pequenas placas de circuito, agregadas à placa principal).
O sistema operacional fica mais elaborado e surgem os primeiros
interpretadores de linguagem de programação.
·
Quarta Geração: similares aos da terceira geração, esses computadores
se diferenciam pelo refinamento da tecnologia de construção dos
componentes, utilizando a integração de circuitos em altíssima
escala (VLSI), que possibilitou o surgimento dos microprocessadores.
De modo geral, o software se tornou proporcionalmente mais rico,
diversificado e complexo.
Antes de mencionarmos o passo seguinte,
que seria a quinta geração, seria interessante citar que a primeira
menção acadêmica séria a respeito da IA foi feita por Alan M.
Turing, em 1950, em sua publicação Inteligência e Funcionamento
das Máquinas, na qual ele tenta determinar até que ponto as
máquinas poderiam mesmo ser consideradas "inteligentes".
Outra curiosidade é a "Máquina
de Turing", que foi a precursora dos sistemas de computação
atuais, desenvolvida na primeira metade do século XX. A partir
de uma fita perfurada, ela era capaz de tomar "decisões",
seguindo um processo lógico pré-programado.
Na década de sessenta, passou-se
a utilizar técnicas heurísticas para automatizar a solução de
problemas. A heurística procura encontrar os indícios da solução
dentro do próprio problema, baseando-se no princípio de que todo
problema carrega em si mesmo o caminho de sua resolução. Esse
importante passo começou a dar aos computadores seu primeiro ar
de "inteligência" reconhecível.
Utilizando-se ainda de máquinas
de quarta geração, os cientistas, engenheiros, designers de produto
e programadores começaram e criar peças com indícios de inteligência
a partir de combinações entre hardware e software. Começava a
era da "Proto-IA".
Mas voltemos às gerações computacionais.
A quinta geração teria como características principais:
nova tecnologia de construção, baseada em outros materiais além
do silício; capacidade de lidar facilmente com linguagens de nível
mais alto; substituição da arquitetura Von Neumann pela arquitetura
de fluxo de dados; novas formas de entrada/saída, como compreensão
de linguagem falada, captura e compreensão de
imagens etc; capacidade de processar conhecimentos (não apenas
dados), denotando uma verdadeira "inteligência artificial".
Mas, apesar dos avanços dos processadores
atuais, isso ainda não aconteceu por completo.
Como Anda a IA "Pura" na Atualidade
Em termos práticos, os computadores
de quinta geração continuam restritos ao plano experimental, tendo
algumas de suas partes prontas e operacionais em laboratório,
enquanto outras existem apenas como simulações de software operando
em computadores de quarta geração.
Mesmo assim surgiram os processadores
chamados de PSI (Processing Sequential Inference - Processadores
Seqüenciais de Inferências), capazes de processar milhares de
inferências lógicas por segundo, enquanto os processadores normais
processam (atualmente) trilhões de instruções por segundo. Esses
computadores "inteligentes" utilizam o processamento
associativo em vez do seqüencial, em que o elemento-chave
não é mais o endereço da informação, mas sim o conteúdo da variável
da inferência lógica.
Para isso ser possível, foi preciso
desenvolver um sistema que trabalhasse
com um núcleo de linguagem (kernel) que operasse com base
na lógica dos predicados. Essa lógica foi trabalhada por diversos
filósofos, culminando no trabalho de Frege. Basicamente, um processador
que trabalhe com esse tipo de linguagem deve ser capaz de processar
algo muito próximo à linguagem natural humana, não necessitando
de diversos códigos intermediários nem de muitos malabarismos
por parte dos programadores.
Os "Indícios" de IA
Um dos tópicos colocados logo à
introdução foi o da existência de dois ramos específicos da IA.
A IA "pura", apresentada até o item anterior, representa
o que os especialistas compreendem por Inteligência Artificial
verdadeira. Os "indícios" de IA não são manifestações
de inteligência propriamente dita por parte das máquinas, com
base no processamento de conhecimentos e no estabelecimento lógico
de relações entre inferências, mas apenas comportamentos aparentemente
inteligentes, programados previamente para serem executados.
Esta pseudo IA está presente em
quase todos os lugares. Desde a luz da geladeira, que se acende
de maneira automática quando se abre a porta da mesma (caso não
considere isso como algo inteligente, retire a lâmpada de sua
geladeira e volte a ler o texto dentro de um mês), até os sistemas
de suspensão ativa microprocessada encontrada nos carros de Fórmula
1, bem como os programas de computador que utilizam buscas
heurísticas na tentativa de encontrar vírus e falhas de software, encontramos diversas
aplicações dessa suposta atitude "inteligente". E esses
comportamentos aparentemente inteligentes são, muitas vezes, classificados
pelo público leigo como IA. Em virtude disso a expressão se tornou
comercial e, hoje em dia, não é raro encontrarmos videocassetes
"inteligentes", torradeiras "inteligentes"
e chuveiros "inteligentes", bem como vermos propagandas
dizendo que determinado veículo tem um sistema de injeção eletrônica
de combustível com "inteligência artificial". O que,
para os especialistas, não é verdade.
Considerações Sobre a "Inteligência" e Sobre o "Artificial"
Antes de chegar a qualquer definição
conclusiva, faz-se necessário apresentar algumas possibilidades
conceituais sobre o que se costuma entender por "inteligência"
e por "artificial".
O conceito de inteligência é bastante
amplo, mas, de um modo bastante geral e superficial, tomamos por
inteligência as capacidades de: apreender e compreender o que
é percebido, estabelecer relações abstratas, emitir opiniões ou
conclusões.
Já o conceito de artificial parece
ser mais fácil de se delimitar, pois sua raiz vem de "artifício",
que implica em algo elaborado com arte (ou com técnica - do grego
techné, que significa tanto "arte" quanto "técnica")
por um ser inteligente e criativo.
O que torna a expressão "Inteligência
Artificial" interessante é o fato de que, considerando as
afirmações anteriores como corretas, ela determinaria uma "inteligência
elaborada por uma inteligência criativa".
Conclusão
Com base no que foi apresentado,
pode-se ousar a ponto de emitir uma proposta de definição de Inteligência
Artificial, como foi proposto na introdução deste trabalho. Essa
definição, embora insuficiente, poderia ser: "Um sistema
capaz de emular (ou até mesmo reproduzir), não apenas em comportamento,
mas em sua base operacional, o funcionamento da inteligência humana
no que diz respeito à cognição, ao raciocínio associativo, ao
aprendizado, à linguagem e à criatividade".
Deve-se sempre estar atento que
tal definição se aplica à IA "pura", já que os "indícios"
de IA estão em toda parte, podendo ser definidos com facilidade
como "qualquer sistema ou dispositivo capaz de reproduzir
automaticamente uma atitude programada pelo ser humano para parecer
inteligente".
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